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  • Naiara Assunção

Coletivo Hunna: como tudo começou

Fui incumbida da tarefa de narrar como o Coletivo Hunna nasceu. Parece uma tarefa simples, mas nós historiadoras e historiadores temos a mania dar todo o contexto antes de começar uma narrativa. Eu podia começar contando sobre quando comecei a fazer dança do ventre, nos idos de 2005, só porque minha mãe viu as aulas em uma academia em Porto Alegre e achou que seria demais ver a filha adolescente dela dançando aquilo. Podia contar como, apesar de nunca ter tido nenhum interesse por aquele estilo, eu acabei me apaixonando pelas músicas e pelo o que meu corpo estava aprendendo. Eu podia contar sobre como o meu interesse sobre a cultura árabe e oriental cresceu quando eu entrei na universidade e comecei a cursar História da UFRGS em 2010. Podia contar como meu treinamento em história colocou uma pulga atrás da minha orelha e eu passei a questionar a narrativa sobre a história da dança do ventre que eu ouvia nas aulas ou lia na internet (de que a dança do ventre era uma dança milenar que surgiu a partir de rituais de fertilidade do mundo antigo e BAM é o que dançamos hoje). Eu podia contar como essa lacuna de alguns milênios de história começou a não fazer nenhum sentido na minha cabeça e que leitura de Orientalismo de Edward Said, em um dos últimos semestres da faculdade, me fez dar conta que a história da dança do ventre era muito mais recente, muito mais violenta e muito menos mítica e bonitinha do eu tinha ouvido até então. Podia contar como, a partir dessa leitura, um mundo se abriu à minha frente com as possibilidades de pesquisa na área e como, a partir disso, desenvolvi um TCC e duas dissertações sobre o assunto.


Mas bem, vou pular toda essa parte e ir direto ao assunto. Já tendo uma pesquisa consolidada sobre história da dança do ventre, tendo oferecido cursos sobre o assunto na Amarein Escola de Danças Árabes em Porto Alegre de 2015 a 2018, eu comecei a ser procurada para trocar ideias, para tirar dúvidas e com pedidos de cursos online. Eu já vinha sentindo a necessidade de democratizar o conhecimento que eu havia adquirido em anos de pesquisa e estudos acadêmicos e já admirava o trabalho de vários amigos e colegas que atuavam no sentido de levar discussões calcadas no rigor científico para fora das universidades de maneira didática e interessante em diferentes redes sociais. Mas minha timidez e falta de intimidade com tecnologias sempre me seguraram a seguir o exemplo.


O pontapé final para eu tomar uma atitude foi quando uma Youtuber, com muitos seguidores, fez um vídeo no qual ela tentou discutir a história da dança do ventre e acabou por reproduzir vários erros e preconceitos sobre o assunto. Muitas pessoas me mandaram o vídeo (eu sou uma senhora que não consome YouTube, então não fazia ideia da existência desse canal) perguntando minha opinião e se as coisas que ela tinha falado estavam certas. Tendo em vista o alcance daquele vídeo, considerei ser meu dever oferecer um contraponto e acabei eu mesma me lançando ao YouTube para corrigir as várias bobagens que a moça tinha falado. O resultado foi melhor do que eu esperava: meu vídeo atingiu várias pessoas, gerou vários debates e me fez dar conta da grande carência que o mundo da dança oriental tinha em relação a conhecimento teórico de qualidade. Várias profissionais estavam aplaudindo a Youtuber, endossando os vários preconceitos que ela falava. Ao mesmo tempo, várias outras profissionais também vieram me agradecer pelo meu vídeo, afirmando que notavam os problemas nas falas da Youtuber, mas que não possuíam as ferramentas para responder.


É bom lembrar que a reprodução de erros e preconceitos, na maioria dos casos, não é fruto de más intenções, mas de falta de conhecimento. E a falta de conhecimento, na maioria dos casos, não é por falta de interesse, mas pela falta de referências: em um mundo digital em que qualquer informação está disponível através de um clique, em que somos bombardeados por notícias falsas via WhatsApp, não é fácil filtrar o que é informação confiável e de qualidade. Tendo isso em mente, somado ao novo contexto de pandêmico de 2020 que trouxe novas perspectivas nas possibilidades de comunicação entre diferentes estados e diferentes países, me dei conta que era possível desenvolver projetos e oferecer cursos mesmo à distância. suprindo essa carência de pensamento crítico em relação ao mar de informação que está disponível na internet.


Foi assim que tive a ideia de chamar outras historiadoras cujo trabalho com dança e pesquisa eu também conhecia e respeitava para comprar essa briga comigo. A formação em história, mais do que nos tornar um repositório de conhecimento sobre fatos e datas, nos transforma em seres críticos, desconfiados e muito chatos. E essa chatísse se escancara nos textões de internet e discussões nas quais entramos e que faz com que nos conectemos e nos amemos entre si. E foi assim que conheci as meninas que são parte do Hunna comigo: a partir de amigos e conhecidos que me mandaram os perfis delas dizendo “acho que vocês têm pesquisas em comum e deveriam se conhecer” (tradução: “olha essa menina aqui que é tão treteira quanto tu, acho que vocês deveriam tretar juntas”). Assim, contatei a Jéssica Prestes (bailarina de danças ciganas e historiadora formada pela PUC-RS), a Ana Terra de Leon (bailarina de fusões tribais e historiadora mestra pela UFSC) e a Nina Paschoal (bailarina de dança do ventre e historiadora mestra pela PUC-SP) por conta das discussões que elas compartilhavam na internet e que demonstravam que elas também se incomodavam com a falta de olhar crítico no meio da dança. Propus para elas que elaborássemos juntas um curso sobre uso de metodologias da história para o estudo das danças que praticamos.


Já em nossa primeira reunião, na qual eu apresentei as meninas umas às outras e detalhei melhor a minha ideia do curso, percebemos que a química tinha sido instantânea. Elas não só toparam a minha ideia inicial como levaram o projeto para um outro patamar de alcance e organização que eu não esperava. Graças à energia, empenho, qualidade das pesquisas, profissionalismo e entrosamento teórico e prático entre as integrantes, e as incríveis habilidades e conhecimentos das meninas em termos de marketing, organização e uso de redes sociais, estamos aí, com um blog em um site lindão, uma conta no Instagram com um número significativo de seguidoras e seguidores, com um grande engajamento nas discussões online, inclusive a nível internacional. O curso, que tinha sido a ideia impulsionadora, teve vagas esgotadas quase um mês antes do início das aulas e já estamos preparando novas edições e outras modalidades de curso.


Termino esse post agradecendo: ao empenho e engajamento das minhas colegas de Hunna que estão fazendo um trabalho incrível para levar esse projeto adiante. A maneira como elas abraçaram esse projeto e colocaram tanto esforço e conhecimento nisso é que fez esse projeto crescer. Também àquelas e àqueles que sempre me encheram o saco para começar a fazer vídeos e conteúdo para redes sociais, me lembrando que o todo o conhecimento que eu construí nos últimos anos foi graças à investimentos públicos em educação e ciência e, por conta disso, há uma função social aí a ser cumprida. Por fim, um super obrigada a todes que estão seguindo e apoiando o Coletivo Hunna nas diferentes plataformas. Estamos muito felizes em poder fomentar a discussões no âmbito da história pública e divulgação científica e com o retorno carinhoso de profissionais e praticantes de diferentes modalidades de danças que comentam, compartilham e participam das discussões que propomos. Isso mostra que, apesar dos tempos sóbrios em que vivemos, de desvalorização da educação, ensino e pesquisa, existe sim, uma demanda por informações de qualidade e por produção de conhecimento comprometida, rigorosa e democrática.


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