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DANÇAS CIGANAS? DANÇA CIGANA? DANÇA ROMA? AQUELA QUE BATE SAIA?


Aqui no Hunna já comentamos a respeito da presença cigana no Brasil, que ela se dá desde meados do séculos XVI, e que a comunidade Roma no Brasil era contratada pela nobreza imperial a fim de animar suas festas com dança e música, como podemos ver nesse trecho:


“Os ciganos participaram das festividades de casamento da princesa da Beira, filha mais velha de D. João VI, com um infante de Espanha, em 1810, dançando no desfile o fandango espanhol, "em que os homens entravam na praça a cavalo com as mulheres à garupa."

Teixeira, 2008, pg 23 e 24.


Ainda assim, quando falamos de diferentes estilos de Danças Ciganas/Roma, como: Roman Havasi, Russka Roma, Zambra Gitana Granadina, Cingeralas, por exemplo, percebemos que são desconhecidas pela maioria das pessoas da própria comunidade de dança. Até mesmo estilos como Ghawazy e Raqs el Kawliya que são associados a comunidades ciganas em seus respectivos territórios, são desconhecidos por parte da comunidade de Dança do ventre.

Meninas ciganas, na "Marcha da Dignidade" de 2011 contra o Racismo. Me Sem Rom, Me Sem Romni! 2011. Reuters/Radu Sigheti.


Por outros, de forma errônea e problemática, sequer são consideradas Danças como parte da indústria de entretenimento e cultura, algo que está intrinsecamente atrelado às comunidades ciganas historicamente.


Existem vários fatores que influenciam isso, desde a invisibilidade e marginalização da comunidade Roma no mundo todo, e até mesmo pelo fato de a própria modalidade de Danças Ciganas ser majoritariamente construída por Gadjos ( não ciganos ) ainda que estes, em parte, tenham contato e relação com os Roma e os tenham como referências.


Porém, outro fator que entendemos como parte do não reconhecimento da complexidade cultural do povo cigano, refletido em sua música e dança, é o Orientalismo/Anticiganismo. Mas como?


O Orientalismo e Anticiganismo, são dois conceitos muito utilizados aqui no hunna, o primeiro cunhado por Edward Said e o segundo, ainda em construção pela comunidade acadêmica e pelos ativistas Roma.


De acordo com Said (2013, p 29), o orientalismo é:


"Um discurso que serviu de instrumento aos europeus para “manejar – e até mesmo produzir – o Oriente política, sociológica, militar, ideológica, científica e imaginativamente” .


Já, o entendimento sobre o Anticiganismo que utilizamos no Hunna é:


"O anticiganismo é um racismo específico contra os Roma (ciganos em todos seus subgrupos como sintis, romanichels, kalóns…) que são estigmatizados como “gypsies” no imaginário popular. Vale lembrar que "Gypsy" é uma criação do europeu, em relação aos povos Roma." Artigo de referência ao Anticiganismo, 2016, pg 5.


Sendo os ciganos representantes indiretos da ideia de " Oriente " na Europa, e como povos perseguidos historicamente, foram alvo de todo tipo de exotificação, e estereotipação, sendo transformados em caricaturas baseadas no imaginário e na percepção das sociedades vigentes em relação aos próprios Roma.


Com isso, as representações de ciganos na cultura pop, em grande parte, foram de caricaturas e estereótipos que endossam comentários do tipo:" Dança cigana é só bate saia" ou “Para dançar ghawazy é só dançar de forma deselegante e abrir bem as pernas” ou ainda “Dança cigana é fácil, basta colocar qualquer coisa em espanhol” são reflexos de uma estrutura de pensamento orientalista e anticigana, atrelado a práticas sociais excludentes e reducionistas de uma etnia altamente complexa…E o Brasil enquanto um país colonizado também perpétua percepções semelhantes.



Foto de uma Ghazyah dançando no flme "Latcho Drom" do diretor Romani Tony Gatlif de Denis Mercier.


E qual a melhor forma de entendermos a complexidade da arte Roma? Estudando o tripé básico: História, Geografia e Musicalidade, com isso podemos fazer jus à riqueza cultural das comunidades Roma, nos posicionando enquanto aliados em suas demandas, entendendo seu contexto e perspectivas!


Mas Hunna, por que eu preciso me posicionar? eu só quero dançar, não é mesmo? É, entretanto, aqui no coletivo, acreditamos que trabalhar ou performar por hobby a dança de outras comunidades, especialmente de grupos excluídos e perseguidos historicamente, demanda compromisso social, para além do glitter e do brilho.


A modalidade de Danças Ciganas tem crescido muito com a criação de grupos, coletivos e festivais, além de cursos específicos com professores da comunidade e pesquisadores que têm contato com as comunidades Roma em si, todo esse "boom" deve ser valorizado, inclusive por eventos de outras modalidades que tem por objetivo contemplar também a modalidade de Danças Ciganas.


Referências:

Alliance against antigypsyism. A reference paper on Antigypsyism. A Working definition of Antigypsyism, 2016.

SAID, Edward. Orientalismo. O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

SELLING, Jan. END, Markus. KYUCHUCOV, Hristo. LASKAR, Pia. TEMPLER, Bill. “Antiziganism: What’s in a Word?”. Cambridge Scholars Publishing. Lady Stephenson Library, Newcastle upon Tyne, NE6 2PA, UK 2015.

Teixeira, Rodrigo Corrêa. História dos ciganos no Brasil, Recife, Núcleo de Estudos Ciganos, 2008, 127pp.

Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas - Estereótipos A Mulher Cigana Sedutora. https://amucip.weebly.com/estereoacutetipos.html.


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