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  • Nina Pachoal

Mata Hari, orientalismo e o feminino

Não exatamente um ícone da cultura pop, mas ainda assim notória, você com certeza já ouviu falar dela: hoje nosso tema é Mata Hari.


A figura de Mata Hari despertou curiosidade desde sua juventude, por ser uma garota bem nascida e cheia de privilégios, como estudar em famosas escolas e saber ler, e assim permanece até os dias atuais. Geralmente lembramos dela geralmente por seu papel como espiã durante a I Guerra Mundial ou simplesmente por suas diversas fotos em trajes de dança. Hoje vamos nos debruçar a entender um pouco mais sobre sua vida, mas principalmente sobre a forma pela qual sua imagem atravessou séculos até nossas telas do Google e quais informações podemos depreender disso.


Repetidas vezes a imagem de Mata Hari é evocada para suprir lacunas que existem na História da Dança, numa tentativa de remontar as origens da Dança do Ventre ou das danças étnicas em geral (lembre-se que já discutimos esse termo há alguns posts atrás, no nosso Instagram).

Mas será que isso se fundamenta? Mata Hari era mesmo uma belly dancer?


Aqui não pretendemos afirmar que sim ou que não, mas entender um pouquinho melhor a construção dessa personagem e o porquê dela permanecer em nossas fotos de referência.

Margaretha MacLeod-Zelle, seu nome verdadeiro, foi oculto com alguns pseudônimos durante a sua vida e Mata Hari foi um deles, usado especificamente para seu “personagem” de dança. Durante alguns anos, já em sua atividade como bailarina, estudou dança e cultura em grupos indianos, e construiu para sua personagem uma história que fosse credível, fingindo ter passado anos da infância em Java e na Índia. Isso, em consonância com seu nome, formaram uma narrativa fictícia, mas que evocava a impressão de veracidade de origem, como se ela tivesse de fato nascido no Oriente. Observem que a escolha de nomes artísticos para dar credibilidade a um passado oriental da bailarina não é uma coisa tão recente.


A primeira apresentação de Mata Hari foi em um museu, onde dançou coberta por um véu de que ia se despindo, até que estivesse vestida somente das joias do acervo que haviam sido trazidas da Índia anos antes, pilhadas durante a colonização britânica. Durante a apresentação, ela se curvava em adoração a ícones de deuses indianos, fingindo adorá-los.


Essa foi a primeira de uma série de famosas apresentações como bailarina; depois disso viriam muitas outras, em teatros importantes e até mesmo como atriz de ópera. É claro que isso era polêmico, mas também exótico e, portanto, apreciável de certa forma. É importante entender que Mata Hari dançava em um contexto em que havia um enorme mercado para apresentações pitorescas.


Estamos falando da era do Vaudeville, que era como um teatro de variedades. Tudo que houvesse de mais “diferentão” era apreciado por ser chocante. Apresentações como as de Mata Hari, que tinham elementos orientais diversos ainda que descontextualizados, eram muito consumidos.

Parece confuso, mas o ser humano sempre foi fascinado por aquilo que lhe alheio, e quando tratamos do aspecto cultural isso não é diferente. Este dado quer nos dizer que elementos que eram estranhos aos europeus podiam ser muito consumidos se estivessem exatamente neste lugar: o de objeto, o de mercadoria. À época, isso não incluía apenas manifestações, mas também pessoas, e os orientais eram colocados dentro desta categoria.

"[...] são sujeitos sim, mas sujeitos reduzidos ao papel de produtores de objetos, de artesãos ou de malabaristas, cujo desempenho é admirado mas com uma admiração que, em vez de apagá-la, marca a distância que os separa dele; e sua pertinência à série “curiosidades naturais” não é totalmente esquecida". (TODOROV, T. A conquista da América: a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, p. 160-161)

Se Mata Hari se vestisse como uma dama inglesa jamais seria permitido que ela se despisse, devido à moral da época. Como ela era trajada nas vestes orientais que conhecemos, isso era perfeitamente aceitável.


E é a isso que chamamos de Orientalismo: uma forma de discurso que produz um sentido degradante para o Oriente quando comparado, mesmo que de forma indireta, ao Ocidente. Mesmo sendo uma “invenção” (termo usado por Edward Said), ou seja, um produto racionalmente construído como elemento retórico, ela tem seu resultado no mundo material. O discurso Orientalista que prevê estereótipos, essencializações e reduções das características culturais do Oriente não está apenas presente em imagens, como as de Mata Hari e sua personagem. Ele também é a própria base da própria colonização do Oriente (iniciada no século XVIII), uma vez que considerar os Orientais como indecentes e condenáveis justificaria a invasão, que então poderia ser entendida como uma forma de civilizar, modernizar e restaurar a moral daqueles povos.


Mas entendamos: Mata Hari não foi uma vítima do discurso orientalista, e sim uma produtora. Dentro da conjuntura em que vivia, ela se aproveitou do interesse e do mercado (muito vultoso, por sinal) movidos pela curiosidade com o Oriente (o que podemos chamar de Egiptomania) que já eram característicos de sua época para construir uma personagem que fosse lhe fosse rentável. Há historiadores que afirmam, inclusive, que ela teria sido a primeira mulher a ter rendimentos vindos deste intenso entusiasmo pelo Oriente.


Sua atuação como espiã, o interesse em sua figura e as constantes matérias jornalísticas e estudos são em parte movidos pela sua anterior função de bailarina. Essa profissão ainda era demasiadamente associada a mulheres de baixo moral, que eram tidas como traiçoeiras, femme fatale e não completamente respeitadas pela sociedade.


Tal qual a primeira esposa do sultão Shariar, das Mil e Uma Noites, Mata Hari não era confiável, manchava a honra feminina regrada. Ela foi foi um construto das características que colocavam em xeque os princípios vitorianos de sua época: além de ser independente e sensual, emulava este Outro oriental bizarro e não confiável; portanto, duplamente julgada, assim como era duplamente espiã.


Mata Hari em apresentação de dança no Museu Guimet, na França, em 1905.


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REFERÊNCIAS:

RAY, Romita. Orientalizing the bayadere/Fabricating Mata Hari. 2012.

SAID, Edward. Orientalismo. O Oriente como invenção do Ocidente. 1990.

TJEPKEMA, Elske. G. The image of Mata Hari remains. The representation of Mata Hari in various media in the Netherlands in relation to her regional and national characterization. 2016

TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. 1999.


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