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  • Nina Pachoal

O Egito no Brasil; o Brasil no Egito

"A egiptomania, devido à sua importância e representatividade constitui [...] um domínio próprio privilegiado e singular na História da Arte. [...] Propomos aqui uma reflexão sobre o sentido dessas práticas, sobre os valores de seus idealizadores, que aqui comparecem exatamente pela seleção dos ícones, dos materiais e dos locais escolhidos para sua exibição."

(BAKOS, Margaret. História antiga: contribuições brasileiras. São Paulo: Annablume, 2018, p. 19)



O Egito ser um tema de interesse e motivo de fascínio não é nenhuma novidade. Desde a Antiguidade (que, para a disciplina da História, datamos sendo desde o nascimento da escrita até o século V da era comum) essa terra já desperta curiosidade a ponto de existir um termo para tratar só desse fenômeno: Egiptomania.


A Egiptomania é um fenômeno que conjuga a ciência e a imaginação, partindo tanto de análises da geologia, geografia e história quanto de saberes populares, fantasias e projeções do imaginário.

Aqui no Brasil a Egiptomania teve um grande ápice durante o reinado de D. Pedro II. O então imperador não somente viajou para o Egito duas vezes como de lá trouxe muitas fotografias, mapas e documentos, e em seguida fez questão de adquirir uma pequena coleção de peças reunidas pela arqueologia. Todo esse material foi doado ao Estado, e ficava abrigado na sede do Museu Nacional do Rio de Janeiro.


A importância do material é notória: além de ser vasto, representa não somente pontos já reconhecidos do Egito, mas também cenas da vida cotidiana, de cidades como Alexandria, Abu Simbel e Wadi Halfa (atualmente parte do Sudão, que faz fronteira com o Egito). Ainda, a Unesco reconheceu recentemente a coleção brasileira como parte da “Memória do Mundo”.

Parte dessa coleção agora está exposta durante todo o mês de novembro em um museu do Cairo, o Gezira Art Center, em Zamalek, com o título de Back to Egypt: a Brazilian collection of photographs. Essa é a primeira oportunidade que os egípcios têm de contemplar essas imagens de seu país feitas ainda no século XIX, graças a uma parceria da Embaixada brasileira e do Ministério de Cultura egípcio.


A mostra marca a efeméride de 150 desde a primeira jornada de D. Pedro ao Egito, e reúne 92 fotografias e 11 painéis explicativos. Nem todo o material exposto, entretanto, foi diretamente produzido por D. Pedro, ainda que fizesse parte de sua coleção. Ainda assim, marca um importante ponto de convergência entre a história egípcia e a brasileira, bem como reaviva a necessidade de continuarem as pesquisas e exibições do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro, ainda que por via de cópias e remanescentes, depois do incêndio que destruiu a sua sede e parte do acervo em 2018.


E ainda teve mais Brasil no Egito nesse mês de novembro!


A exposição Forever is Now, a primeira de arte contemporânea a ser feita na área das pirâmides, também contou com a presença de um artista brasileiro que produziu uma instalação especificamente para a mostra. João Trevisan, natural de Brasília, ergueu uma escultura abstrata de mais de 6m de altura chamada “Um corpo que se levanta”. Ele foi o único brasileiro contemplado.

A curadoria ficou por conta de Simon Watson, que já tinha anteriormente agenciado a exposição Corpo e Alma, do mesmo artista, para a programação do Museu de Arte Sacra de São Paulo. Segundo ele, as obras de Trevisan “transmitem uma sensação de poder humano e de sofrimento na luta com aquelas vigas pesadas. Vista no Planalto de Gizé, a escultura de João Trevisan irá ecoar e ampliar as obras dos antigos. Os visitantes do Planalto de Gizé que testemunharem a escultura de João Trevisan ‘Um corpo que se levanta’ – que transmite o imenso poder e fisicalidade dos dias atuais – irão nos conectar com nosso passado vibrante.”


Todas as instalações produzidas tiveram caráter monumental e procuraram explorar as dimensões do tempo e do espaço, conectando a civilização antiga com a contemporânea através de obras que se relacionassem com o passado através de linguagens atuais. Além de Trevisan, artistas de outras nove nacionalidades foram selecionados para Forever is Now, incluindo os egípcios Moataz Nasr e Sherin Guirguis e o saudita Sultan Bin Fahad.


O empreendimento foi produzido por parceria da Unesco com os Ministérios do Turismo e Antiguidades e das Relações Exteriores do Egito, e mediação da Art D’Egypte. Contou ainda com o notório arqueólogo Dr. Zahi Hawass como conselheiro. A ideia é salientar a importância de Gizé como patrimônio histórico, protegendo-o e preservando-o enquanto sitio histórico e arqueológico, bem como educando sobre a importância de mantê-lo para as próximas gerações, dado levado adiante pela realização de visitas escolares à mostra.





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