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  • Ana Terra de Leon

O outro, o Egito Antigo e a Branquitude


O branco tem dificuldade de se ver como branco. É tido como o ser neutro, assim como o homem europeu. E aí todo o resto é sinalizado. Usemos o exemplo da dança: sinalizamos que uma dança é étnica quando ela pertence a um grupo não-branco. Esse é um lugar importante para partirmos: se você que está lendo é branca, você se percebe como tal?


Todo grupo humano possui seus “outros”: para constituir nossas identidades, inclusive do ponto de vista da cultura nacional, buscamos caracterizar a nós mesmos em relação à criação de todo um imaginário sobre o Outro. Na branquitude, como nos vemos em posição de neutralidade, somos aqueles que, hegemonicamente, ditam quem é o Outro.


Algumas pessoas poderiam dizer “Ah, mas no Brasil, todos somos misturados! Ninguém é branco de fato no Brasil”. Talvez possamos pensar nisso do ponto de vista biológico, sim. Porém, duas coisas precisam ser levadas em consideração: 1) quando falamos em raça em História, estamos discutindo uma categoria social, e 2) mesmo que haja na sua família ascendência indígena ou africana, algo super comum no Brasil, quais são os marcadores na tua aparência? É necessário cuidado com a má fé na hora de argumentar “somos todos brasileiros e portanto mestiços”.


E o que isso tem a ver com a gente aqui no Hunna? Se a narrativa que a branquitude cria sobre a história é marcada pela noção de neutralidade, existe também a pretensa noção de civilização. Ao entender o branco como sinônimo de civilizado, todos os “outros” em contrapartida viram sinônimo de atraso ou de um estágio incompleto de desenvolvimento; muitas vezes embranquecemos o passado, por conta de não querer desbancar a superioridade da branquitude em face dos feitos de grandes civilizações não-brancas.



É o caso do Egito Antigo faraônico que, apesar de todas as evidências arqueológicas de que foi governado e integrado por pessoas que, hoje em dia, seriam consideradas negras, é frequentemente representado por pessoas brancas em filmes, séries, na mídia em geral e, é claro, na dança do ventre.


Cabe salientar que o Egito está em posição geográfica que foi, historicamente, estratégica, inclusive do ponto de vista do comércio e da produção agrícola. Isso é relevante porque trata-se de um local que se coloca como ponto de intersecção cultural e político, além de econômico. O que significa dizer que, estando em um local que fazia trocas comerciais com países vizinhos e banhados pelo Mediterrâneo, é possível notar influência grega, cigana, romana, turca etc. ao longo do tempo. Nesse sentido, é possível dizer que o Egito Antigo era multiétnico.


No entanto, como dissemos anteriormente, é seguro dizer que muitas linhagens faraônicas possuíam características fenotípicas capazes de serem identificadas como o que hoje chamamos de negro ou preto. E não só os faraós e suas famílias como outros integrantes da sociedade egípcia da época.


Por que, então, o Egito Antigo foi tão embranquecido ao longo da história nas suas representações? A resposta é longa, mas pode ser resumida em dois termos que nós aqui do Hunna utilizamos muito: colonização e colonialidade.


Assim como o restante do território africano, as Américas e a diversos locais da Ásia, o Egito passou pelo processo de colonização. Na realidade, o Egito foi alvo de muitas disputas ao longo de toda a história, não apenas o período colonial moderno. Desde as invasões árabes passando pelo comando turco, invasões francesas e a colonização inglesa, é um país historicamente muito disputado.


Do ponto de vista europeu, especialmente a Inglaterra, que colonizou o Egito entre 1882 e 1922 (mas o processo de independência pode ser dado como completo em 1952), seria interessante atestar a inferioridade do território colonizado. Com um passado envolto em desenvolvimento de ciência, religiosidade complexa, sociedade estratificada e arquitetura impressionante, dentro da lógica da branquitude colonial da qual falamos lá no início do texto, o passado egípcio era bastante difícil de engolir para os ingleses - e para o restante dos países imperialistas de modo geral. Assim sendo, não é difícil entender o processo de branqueamento do Egito Antigo, tema muito em voga no final do século XIX e início do XX, compreendendo este contexto. Do ponto de vista imagético, para a Europa, admitir que sociedades não-brancas - especialmente indivíduos africanos e negros -, podiam ser idealizadoras e realizadoras de uma sociedade considerada grandiosa, representava uma questão complexa do ponto de vista do poder. Além disso, do ponto de vista do orientalismo, as representações sobre o chamado “oriente” sempre seriam adaptadas para uma estética mais condizente com os padrões de beleza europeus. A aparência fora do padrão europeu, inclusive os traços do corpo e do rosto, não era considerada atraente. Ao contrário, mulheres e homens com traços não-brancos eram vistos como selvagens e, caso considerados bonitos, seriam sempre inferiorizados à categoria de “beleza exótica”.



Quantos destes padrões e construções históricas coloniais estamos reproduzindo em nossas danças, quando buscamos uma representação do Egito Antigo (ou do atual) embranquecida? Quando um canal de TV por assinatura se dedica a explicar a estruturação da religião e a arquitetura de um povo apelando para alienígenas, quanto disso não é sintomático de uma tentativa de jamais admitir que um povo não-branco, fora da lógica europeia, não seria capaz desse tipo de empreendimento? Quando aceitamos esse tipo de explicação absurda, estamos compactuando com uma máxima racista: que sociedades antigas fora da Europa, especialmente em África, não poderiam realizar grandes feitos - “se nem na Europa estava acontecendo, como que pessoas pretas conseguiriam?”. Além do racismo, temos aí uma noção linear de história que assume que existe uma ideia de progresso e que povos mais recuados no tempo não teriam capacidade própria de desenvolver tecnologias de governar, de construir, de comerciar, morar, se alimentar etc.


O Egito é multiétnico, tanto o atual quando o do passado. E o Egito Antigo foi em muitos momentos um Egito Negro. Não há filme da Elizabeth Taylor que possa convencer qualquer historiadora séria do contrário. E você que está lendo tem o direito - e agora, o dever - de saber disso também.

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